Vamos fazer um teste rápido. Você calibra os pneus do carro antes de pegar a estrada, troca o óleo no prazo, faz a revisão anual... Faz? Enfim... Agora me diz uma coisa: quando foi a última vez que você fez uma revisão em você? Não estou falando do check-up do corpo, embora esse também fique para depois. Estou falando da cabeça. Daquilo que não aparece em exame de sangue, não faz barulho e não acende luzinha no painel. Tratamos o carro como se fosse a coisa mais valiosa da nossa vida e tratamos a própria vida como se fosse um carro velho: só olhamos quando o motor começa a falhar.
Essa é a cultura do brasileiro com a saúde, e não é de hoje. Não fomos educados para prevenir, fomos educados para apagar incêndio. A prova está nos números. Segundo o IBGE, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios sobre esportes, 62,1% dos brasileiros não praticavam nenhuma atividade física; só 37,9% se movimentavam em alguma medida. Repare na contradição: as academias vivem cheias, todo mundo quer um corpo esteticamente bonito, mas o exame de sangue periódico, o clínico visitado sem dor, isso quase ninguém faz. A gente entrou na academia pela porta da vaidade e acabou descobrindo que exercício também previne infarto. Mas nunca fez o caminho inverso: cuidar do que não se vê antes de ele gritar.
Se é assim com o corpo físico, imagina com a mente. A mente é o último item da fila, quando entra na fila. E o Brasil paga caro por isso, em números que o governo mesmo registra.
A Organização Mundial da Saúde colocou o Brasil no topo de um ranking que ninguém quer liderar: somos o país com o maior número de pessoas ansiosas do planeta, cerca de 18,6 milhões de brasileiros, aproximadamente 9,3% da população, segundo as estimativas globais da OMS. Não é força de expressão, é dado de organismo internacional. E o Ministério da Previdência Social mostra o que essa ansiedade vira na vida real: em 2014, cerca de 203 mil trabalhadores foram afastados do trabalho por transtornos mentais e comportamentais. Dez anos depois, em 2024, esse número mais que dobrou, passando de 470 mil afastamentos, um salto de quase 67% em relação ao ano anterior. A Associação Nacional de Medicina do Trabalho, analisando dados oficiais do INSS, confirmou a tendência de crescimento contínuo, com ansiedade, depressão, estresse grave e burnout entre as principais causas. E a escalada não parou: em 2025, o Brasil bateu novo recorde, com mais de 546 mil afastamentos por saúde mental, segundo o Ministério da Previdência Social. Os afastamentos por burnout, especificamente, cresceram 493% entre 2021 e 2024, pressionando os gastos da Previdência, como registrou a Folha de S.Paulo.
Pausa para respirar, porque o número é grande demais para passar batido: mais de meio milhão de pessoas afastadas do trabalho em um único ano por causa da cabeça. Meio milhão de histórias que começaram, quase sempre, muito antes, com um medo que não passava, um sono que não vinha, um corpo que doía sem exame explicar, uma sensação de estar sempre no limite. Só que ninguém olhou para o painel. E quando acendeu a luz, o motor já tinha fundido.
Aí vem a objeção clássica, e ela tem nome e sobrenome: "psicanálise é cara, isso aí é coisa de gente que tem dinheiro". Vamos olhar para essa frase com carinho, porque ela está dizendo mais do que parece. Quando alguém fala que análise é coisa de rico, na verdade está dizendo: eu não posso parar, não posso desacelerar, não posso gastar comigo, porque se eu parar, tudo desaba. É uma frase de quem vive no piloto automático de sobrevivência, não uma avaliação de mercado. E o mercado, de tanto repetir essa história, ajudou a construir o estigma: saúde mental como luxo, como artigo para poucos, como frescura de quem tem tempo.
Os dados mostram que a barreira financeira é real, e não dá para fingir que ela não existe. Um levantamento da Doctoralia divulgado pela CNN Brasil ouviu 3.400 pessoas e encontrou um número incômodo: 19,7% dos brasileiros já desistiram de terapia por falta de dinheiro. A Serasa, em pesquisa com 1.766 consumidores, mostrou que 43% declararam ter despesas com saúde mental e que esses gastos desorganizam as finanças de pelo menos 35% das famílias. Ou seja: as pessoas gastam com saúde mental, gastam muito, só que gastam do jeito errado, na emergência, quando o problema já virou crise, remédio, consulta de urgência, afastamento, perda de renda. É o mesmo raciocínio do carro: quem não troca o óleo na hora acaba pagando o motor.
Mas aqui vai a virada que quase ninguém faz, e é a pergunta que o título prometeu: se a gente está disposto a pagar caro na emergência, por que não pagar barato na prevenção? O cuidado preventivo com a mente custa uma fração do que custa uma crise instalada. Uma sessão de escuta não se compara com meses de afastamento, com a perda do emprego, com o relacionamento que se rompeu, com a noite que não volta. Como mostram os números da Previdência, o sofrimento não tratado cobra a conta, e cobra em parcelas invisíveis, sem desconto e sem aviso.
A gente já aceitou que exercício físico previne infarto. Aceitou que academia é investimento em longevidade, mesmo quando a motivação inicial é só estética. Pois a psicanálise propõe exatamente o mesmo princípio, só que para dentro: cuidar da mente antes da crise, como quem se exercita antes do infarto, é manutenção preventiva da vida. Não é luxo, não é frescura, não é coisa de rico. É a mesma lógica que você já aplica no corpo, aplicada àquilo que comanda o corpo inteiro.
E o retorno dessa escolha não é abstrato. Pense no que muda na sua vida quando você começa a entender por que repete os mesmos erros, por que certas relações terminam do mesmo jeito, por que o corpo trava quando a cabeça não descansa. Quanto vale uma vida com mais clareza, mais leveza, melhor sono, melhores decisões? Quanto você pagaria para viver mais e melhor, com saúde de verdade, e não apenas com ausência de doença? Essa é a conta que ninguém faz, porque a gente foi treinado para olhar o preço da sessão e não o preço da vida inteira.
Se você se reconheceu em alguma linha deste texto, guarde isto: você não precisa esperar quebrar para começar a se cuidar. O mesmo cuidado que você já tem com o corpo, quando se exercita sem estar doente, pode ter com a mente, sem estar em crise. A psicanálise não pede que você seja perfeito, pede que você pare de se adiar. Agende sua 1ª consulta e comece a entender o que está por trás do seu sofrimento, antes que ele vire um afastamento, um diagnóstico, uma história interrompida. O melhor momento para cuidar de você é o mesmo de sempre: agora, antes da dor aparecer.
Clínica Guinada Psicanalítica (GuinaPsi) | Psicanálise clínica e organizacional |
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BIBLIOGRAFIA
· ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates. Genebra: OMS, 2017. Dado Brasil (18,6 milhões; 9,3%) repercutido por UOL: "Segundo OMS, Brasil é líder global em quantidade de pessoas ansiosas", 20/01/2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2025/01/20/segundo-oms-brasil-e-lider-global-em-quantidade-de-pessoas-ansiosas.htm
· MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL / AGÊNCIA BRASIL. "Saúde mental: afastamentos dobram em dez anos e chegam a 440 mil", 11/03/2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-03/afastamentos-por-transtornos-mentais-dobram-em-dez-anos-chegam-440-mil
· MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL / G1. "Brasil tem mais de 546 mil afastamentos por saúde mental em 2025 e bate recorde pela segunda vez em 10 anos", 26/01/2026. Disponível em: https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/01/26/brasil-tem-mais-de-546-mil-afastamentos-por-saude-mental-em-2025-e-bate-recorde-pela-segunda-vez-em-10-anos.ghtml
· IBGE. PNAD Esportes 2015: Prática de Esportes e Atividades Físicas. Disponível em: https://educa.ibge.gov.br/jovens/materias-especiais/19051-pnad-esportes-2015-pratica-de-esportes-e-atividades-fisicas.html
· ANAMT (Associação Nacional de Medicina do Trabalho). "Levantamento com dados oficiais do INSS revela crescimento dos afastamentos por problemas de saúde mental entre 2023 e 2025". Disponível em: http://anamt.org.br/portal/2026/01/27/levantamento-anamt-com-dados-oficiais-do-inss-revela-crescimento-dos-afastamentos-decorrentes-de-problemas-de-saude-mental-entre-2023-e-2025
· FOLHA DE S.PAULO. "Afastamentos por burnout disparam e gastos com auxílios pressionam Previdência", janeiro/2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/01/afastamentos-por-burnout-disparam-e-gastos-com-auxilios-pressionam-previdencia.shtml
· DOCTORALIA / CNN BRASIL. "Quase 20% dos brasileiros já desistiram de terapia por falta de dinheiro", 19/09/2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/quase-20-dos-brasileiros-ja-desistiram-de-terapia-por-falta-de-dinheiro
· SERASA. "Gastos com saúde mental desorganizam as finanças de pelo menos 35% das famílias brasileiras", setembro/2024. Disponível em: https://www.serasa.com.br/imprensa/gastos-com-saude-mental
SOBRE O AUTOR:
Psicanalista Clínico, pós-graduado em Psicanálise Clínica Integrativa com especializações em Neuropsicanálise e Neuropsicologia, com mais de 30 anos de trajetória profissional multidisciplinar, incluindo Jornalismo, Gestão pela Qualidade, Segurança do Trabalho e Responsabilidade Social, Luiz J. Ribeiro Jr une a profundidade da escuta psicanalítica às descobertas da neurociência no atendimento clínico e organizacional.
Este conteúdo é fruto dos seus estudos e da prática clínica.
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