A frase "você só precisa ser esforçado" costuma ser lida como uma dica simples de produtividade, mas, vista pela psicanálise, ela esconde um conflito que quase todo mundo carrega sem saber.
Ao nosso redor, a maioria das pessoas vive na nota 4,5; se você for nota 7, já passa à frente de quase todo mundo, e se for nota 6, já fica acima de uma multidão. O problema é que muita gente não se cobra um 7, e sim um 10, e o 10 é cruel, porque para alcançá-lo é preciso renunciar até quem se é, para realizar aquilo que nem o outro quis realizar.
Essa exigência de perfeição, porém, não nasce de você. Ela nasce de uma voz interna que Freud, em O Eu e o Id (1923), chamou de superego, aquela instância que avalia, cobra e julga sem nunca se dar por satisfeita. Quanto mais você se esforça para ser correto, aceito e perfeito, mais severa essa voz se torna, como o próprio Freud escreveu: "é assustador que o ser humano, quanto mais limita sua agressão para fora, tanto mais severo, e por isso mais agressivo, se torna contra o seu eu". O 10, então, muitas vezes não é ambição, é submissão a um crítico interno que nunca para de cobrar, e é por isso que a busca pela perfeição cansa tanto: ela não tem ponto de chegada.
Há ainda um segundo movimento, mais escondido. A nota que você se dá não é sua, ela é a nota que você imagina que o outro te daria, o que Lacan resumiu no Seminário 11 (1964) ao afirmar que "o desejo é o desejo do Outro": você quer ser 10 porque imagina que, com nota 10, finalmente seria visto, admirado e aceito. O espelho em que você se olha não reflete você, reflete o olhar que você projeta nos outros, e quem vive medindo a própria vida pela régua alheia nunca termina de se medir. É aí que mora a armadilha de renunciar a si mesmo para agradar, fenômeno que Winnicott descreveu em Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self (1960): quando a pessoa se molda para sobreviver ao ambiente, constrói uma fachada perfeita e esconde o que é de verdade, até o dia em que vence na prova, mas percebe que perdeu a si mesma no caminho. Freud já havia observado algo semelhante em Alguns tipos de caráter encontrados na prática psicanalítica (1916), ao descrever pessoas que adoecem justamente no momento em que estão prestes a alcançar o triunfo, porque o objetivo que perseguiam não era delas, e quando ele se aproxima, o sujeito desmorona.
A saída, portanto, não é desistir do esforço, e sim perguntar para quem ele está endereçado. Esforço que nasce do medo de ser julgado vira corrente; esforço que nasce do desejo vira travessia. A psicanálise não pede que você seja mediano, pede que você seja inteiro. A nota 7, nesse sentido, é uma boa metáfora para a consistência: fazer bem feito, com constância e com o seu nome, sem precisar se destruir para isso. O 7 que é seu vale mais do que o 10 que é do outro, e quando você deixa de correr atrás de um 10 para agradar, o esforço deixa de ser cobrança e vira construção. Você não precisa ser 10 para ser suficiente; basta ser inteiro, e isso não se conquista se cobrando mais, e sim escutando o que você evita.
As citações usadas, com referência completa.
Citação 1 — Freud, sobre a severidade do superego
"É assustador que o ser humano, quanto mais limita sua agressão para fora, tanto mais severo, e por isso mais agressivo, se torna contra o seu eu."
· Obra: FREUD, Sigmund. O Eu e o Id (1923), capítulo III, "O ego e o superego".
· Fontes verificadas: citação real, reproduzida em literatura acadêmica revisada (SciELO, artigo sobre o supereu e as pulsões), e obra confirmada na Edição Standard Brasileira, vol. XIX, e na Companhia das Letras, Obras Completas, vol. 16.
· Observação: a formulação da frase está confirmada; a paginação exata depende da edição usada, recomendo conferir na sua edição antes de exibir a referência na tela.
Citação 2 — Lacan, sobre o desejo
"O desejo é o desejo do Outro."
· Obra: LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
· Fontes verificadas: formulação real e central do ensino lacaniano, confirmada em fontes acadêmicas (verbetes e artigos sobre o desejo em Lacan; o grafo do desejo é localizado na p. 207 da edição Jorge Zahar, citada em artigo científico revisado).
· Observação: a fórmula também aparece em Escritos ("A subversão do sujeito e o desejo em Freud"). Confirme a paginação na edição que você utilizar.
Citação 3 — Winnicott, sobre o falso self
"O falso self é construído sobre uma base de submissão."
· Obra: WINNICOTT, Donald W. "Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self" (1960). In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.
· Fontes verificadas: conceito e texto reais, confirmados em literatura acadêmica (artigo da SciELO sobre os conceitos de verdadeiro e falso self, que remete a Winnicott, 1960/1983) e no texto original em inglês ("Ego Distortion in Terms of True and False Self", em The Maturational Processes and the Facilitating Environment).
· Observação: a ideia central está confirmada; a paginação exata na edição brasileira depende da impressão, recomendo conferir.
3. Bibliografia
1. FREUD, Sigmund. O Eu e o Id (1923). In: Obras Completas, vol. 16. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. (Também na Edição Standard Brasileira, vol. XIX.)
2. FREUD, Sigmund. Alguns tipos de caráter encontrados na prática psicanalítica (1916). In: Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916), vol. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Seção "Os que fracassam no triunfo" (na edição da Companhia das Letras, inicia-se na p. 260).
3. LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
4. WINNICOTT, Donald W. "Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self" (1960). In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.
SOBRE O AUTOR:
Psicanalista Clínico, pós-graduado em Psicanálise Clínica Integrativa com especializações em Neuropsicanálise e Neuropsicologia, com mais de 30 anos de trajetória profissional multidisciplinar, incluindo Jornalismo, Gestão pela Qualidade, Segurança do Trabalho e Responsabilidade Social, Luiz J. Ribeiro Jr une a profundidade da escuta psicanalítica às descobertas da neurociência no atendimento clínico e organizacional.
Este conteúdo é fruto dos seus estudos e da prática clínica.
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