No GuinaCast realizado em 25 de setembro, recebemos Ana Kern e Dora Ferro para uma conversa que todo gestor e profissional de RH precisa ouvir: fatores de risco psicossociais e o que a NR-01 realmente exige das empresas. Em um momento em que cuidar da saúde mental dos times deixou de ser diferencial e virou necessidade estratégica, o episódio fez o que o GuinaCast se propõe a fazer — traduzir um tema técnico, denso e cheio de armadilhas para uma linguagem clara, sem perder a profundidade. E o fio condutor de toda a conversa ficou evidente desde os primeiros minutos: o fator humano na NR-01 e na gestão de riscos ocupacionais.
As convidadas e o momento certo
Ana Kern e Dora Ferro conduziram o papo com uma didática rara em temas de compliance e SST. Longe de um recital de normas, as convidadas mostraram o que a prática de consultoria para o mercado atual tem de mais valioso: a capacidade de transformar exigência legal em gestão de verdade. O timing do episódio não poderia ser melhor. Desde 26 de maio de 2026, os fatores psicossociais passaram a integrar obrigatoriamente o Programa de Gerenciamento de Riscos das empresas regidas pela CLT, na esteira da atualização da NR-01 (Portaria MTE 1.419/2024), e a fiscalização já está em curso. Ou seja: o assunto deixou de ser "tema de RH" para se tornar obrigação de gestão, com reflexos diretos no eSocial, a partir do inventário de riscos do PGR que alimenta o evento S-2240. Foi a partir desse cenário que a conversa ganhou corpo.
O que a NR-1 realmente exige
Uma das perguntas que mais geram confusão nas empresas foi enfrentada de frente pelas convidadas: afinal, o que a NR-01 realmente exige? Ficou claro no episódio que a norma não pede um "programa de saúde mental" genérico, muito menos um documento bonito para engavetar. Ela pede que os fatores psicossociais sejam tratados com a mesma lógica aplicada aos demais riscos ocupacionais: identificação, avaliação, plano de ação, monitoramento e revisão periódica. Em outras palavras, a NR-01 cobra que o risco invisível — aquele que não tem ruído, nem produto químico, nem máquina envolvida — entre formalmente no mesmo ciclo de gestão dos riscos visíveis. E aqui o episódio tocou num ponto caro à nossa experiência: o PGR não é o começo, é o resultado. Ele só tem valor se refletir um processo vivo dentro da organização, e não um arquivo produzido uma vez por ano.
O que são, afinal, os riscos psicossociais
A conversa também percorreu o terreno do que são esses riscos na prática. Esgotamento, cobranças desmedidas e metas abusivas, assédio, perseguição, isolamento, a cultura do medo — fatores que adoecem silenciosamente e que, segundo os dados apresentados ao longo do debate, ajudam a explicar um quadro alarmante: só em 2025, foram registrados no Brasil mais de meio milhão de afastamentos por transtornos mentais. O que as convidadas mostraram é que esses fatores não são "problemas pessoais" de cada trabalhador, mas características da organização do trabalho — e é exatamente por isso que precisam ser geridos pela empresa, e não transferidos para o indivíduo.
Questionário, método e o fator humano
Um dos momentos mais aguardados do episódio respondeu a uma pergunta que atormenta muita gente: é preciso aplicar um questionário? A resposta trabalhada pelas convidadas foi cirúrgica: questionário é ferramenta, não é método. Aplicar um instrumento por aplicar, sem critério, sem método de referência e sem leitura qualificada dos resultados, gera dados que não levam a lugar nenhum — e, pior, cria uma falsa sensação de conformidade. A avaliação dos riscos psicossociais começa pela definição de um método consistente e segue pela qualidade de quem conduz o processo. E é exatamente aí que mora a contribuição que nos é mais cara: escutar o que está por trás do número. A psicanálise organizacional entra nesse ponto não para substituir a engenharia de SST, mas para devolver ao processo aquilo que nenhum formulário captura sozinho — a subjetividade, a história, o fator humano.
E depois de identificar os riscos
O último bloco da conversa respondeu à pergunta que fecha o ciclo: o que a empresa deve fazer depois de identificar os riscos? A orientação foi objetiva: transformar a identificação em plano de ação, com responsáveis, prazos e indicadores, e depois monitorar. De nada adianta um inventário impecável se a empresa não age sobre ele. As convidadas foram enfáticas ao lembrar que a gestão de riscos psicossociais é um processo contínuo — o risco muda, o time muda, o contexto muda, e o PGR precisa mudar junto.
Para quem perdeu, fica o convite
O episódio terminou com uma síntese que vale como recado para todo gestor: quem esperar a dor aparecer para cuidar da saúde mental do time vai continuar apagando incêndio. A gestão de riscos psicossociais é, antes de tudo, uma forma de escuta organizacional. O GuinaCast desta edição segue disponível no canal para quem quiser ver a conversa completa, com os exemplos práticos e as respostas das convidadas na íntegra. E se essa conversa tocou em algo em você ou na sua empresa, deixe seu comentário, compartilhe com o time de RH e continue acompanhando o GuinaCast — porque é assim, falando do que realmente importa, que a gente transforma o que sentimos em caminho para seguir em frente.
SOBRE O AUTOR:
Psicanalista Clínico, pós-graduado em Psicanálise Clínica Integrativa com especializações em Neuropsicanálise e Neuropsicologia, com mais de 30 anos de trajetória profissional multidisciplinar, incluindo Jornalismo, Gestão pela Qualidade, Segurança do Trabalho e Responsabilidade Social, Luiz J. Ribeiro Jr une a profundidade da escuta psicanalítica às descobertas da neurociência no atendimento clínico e organizacional.
Este conteúdo é fruto dos seus estudos e da prática clínica.
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