O vício da internet, o desejo do que não é real e a inveja

Você abre o celular e a vida dos outros é perfeita. A sua não.

 

Você já reparou? Você acorda, pega o celular e a primeira coisa que vê é a vida dos outros. A viagem perfeita. O corpo perfeito. O casamento perfeito. O carro novo. A conquista. E você, ali, comparando a sua vida com aquilo tudo. E quanto mais você compara, mais a sua vida parece pequena, sem graça, atrasada. Mais você sente aquela angústia, aquela ansiedade, aquela insatisfação que não passa.

 

Hoje eu vou te mostrar o que a psicanálise entende sobre isso há mais de um século. O seu problema pode não ser a sua vida. O seu problema pode ser o vício de desejar uma vida que não é real, que não existe, que foi fabricada para ser desejada.

 

2. O VÍCIO INVISÍVEL

 

Você não está viciado no celular. Você está viciado no desejo.

 

A gente costuma pensar que vício é só álcool, cigarro, jogo. Mas existe um vício silencioso, que a maioria das pessoas não reconhece: o vício de desejar. Você não sente falta do aparelho. Você sente falta da sensação de querer, de imaginar, de sonhar com uma vida que não é sua. O dedo desliza, o conteúdo muda, e você fica ali, preso, desejando.

 

Freud já percebia esse mecanismo em 1914, no texto Recordar, Repetir e Elaborar: quando algo não é elaborado, a pessoa não lembra, ela repete (FREUD, 1914, v. 12, p. 163). Você repete o gesto de deslizar a tela. Repete a comparação. Repete a insatisfação. E cada repetição reforça o ciclo.

 

O vício não é a tela. O vício é a repetição do desejo que nunca se completa.

 

3. A VIDA DOS OUTROS NÃO É REAL

 

Você está desejando uma vida que nem existe.

 

Aqui está a verdade que ninguém te conta: a vida que você vê na rede social não é a vida das pessoas. É uma imagem. É um recorte. É a melhor cena, o melhor ângulo, a melhor versão, editada e filtrada. Ninguém posta o fim de semana inteiro. Ninguém posta a briga de casal. Ninguém posta a dívida. Ninguém posta a solidão.

 

Mas você, diante da tela, trata aquela imagem como se fosse a vida real daquela pessoa, e compara com a sua vida real, com os seus dias comuns. E aí a sua vida parece pequena. O seu emprego parece pouco. O seu casamento parece sem graça. O seu carro parece velho.

 

Repare: você não está comparando a sua vida com a vida do outro. Você está comparando a sua vida real com a imagem fabricada do outro. É uma disputa injusta, e você sempre perde.

 

4. O DESEJO QUE NÃO É SEU

 

Você não deseja o que quer. Você deseja o que o outro mostra.

 

E aqui a psicanálise faz uma virada que muda tudo. Jacques Lacan, no livro Escritos, formulou uma frase que parece enigma, mas é um diagnóstico: "o desejo do homem é o desejo do Outro" (LACAN, 1966, p. 345).

 

O que isso significa na prática? Que boa parte do que você deseja, você não deseja porque é seu, mas porque viu o outro desejando, ou porque acreditou que o outro deseja aquilo. A viagem. O carro. A foto. O estilo de vida.

 

O algoritmo sabe disso. Ele não te mostra o que você quer. Ele te mostra o que faz você querer. Ele alimenta o seu desejo com imagens que nunca se completam, porque o desejo satisfeito não gera engajamento. O desejo insatisfeito, esse sim, mantém você preso à tela, desejando, cobiçando, voltando amanhã.

 

5. A INVEJA QUE ROE POR DENTRO

 

Não é falta do que o outro tem. É dificuldade de enxergar o que é seu.

 

E o que nasce dessa comparação constante é o sentimento mais corrosivo que existe: a inveja. Melanie Klein, a psicanalista que estudou as emoções mais profundas da mente, escreveu no livro Inveja e Gratidão (1957) que "a criatividade é a causa mais profunda da inveja" (KLEIN, 1957, p. 234).

 

Pensa nisso. A inveja não nasce do outro ter muito. Ela nasce da dificuldade de reconhecer o que é bom, o que é seu, o que você já construiu. Quanto mais você olha para a tela, mais você exercita essa dificuldade. E quanto mais você exercita, mais a sua própria vida perde a cor.

A inveja não rouba nada do outro. Ela rouba de você. Ela rouba a sua capacidade de enxergar e de viver o que é seu.

 

6. O SOFRIMENTO DE SE COMPARAR

 

A maior fonte de sofrimento humano é a relação com os outros. E a tela transformou isso em máquina.

 

Em 1930, no livro O Mal-estar na Civilização, Freud escreveu que o sofrimento nos ameaça a partir de três direções: do nosso próprio corpo, do mundo exterior e das nossas relações com os outros. E ele foi direto: a maior fonte de sofrimento é a relação com os outros (FREUD, 1930, v. 21, p. 141).

 

Pensa no que a rede social fez com isso. Ela pegou a nossa tendência natural de nos compararmos com o outro e transformou em máquina, ligada 24 horas por dia. Antes, você comparava a sua vida com a do vizinho, com a do colega de trabalho. Agora, você compara a sua vida com a de bilhões de pessoas, nas suas melhores versões, o tempo todo.

 

A angústia, a ansiedade, a insatisfação crônica com o emprego, com o casamento, com o corpo, com o carro: isso não é fraqueza sua. É o efeito previsível de viver com os olhos na vida dos outros.

 

7. A TELA E O FALSO EU

 

Você se escondeu tão bem que deixou de ser encontrado. Até por você mesmo.

 

E tem um segundo movimento, ainda mais sutil. Enquanto você deseja a vida que o outro mostra, você também esconde a sua. Nas redes, você não mostra quem você é. Você mostra quem você gostaria de parecer.

 

Donald Winnicott, um dos maiores nomes da psicanálise, escreveu num ensaio de 1963: "é uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser encontrado" (WINNICOTT, 1963, p. 169). Esconder-se é necessário, preserva o que é íntimo. Mas o desastre é quando ninguém nunca mais nos encontra, quando a máscara fica tão colada que até você esquece quem é por baixo dela.

 

Você posta a vida perfeita, como os outros postam. E ali, no meio de tanta imagem, a sua vida real fica escondida, sem ser encontrada, sem ser vivida. A vida não anda porque quem anda na tela é um personagem. A sua vida real ficou esperando.

 

8. A SEDUÇÃO DA TELA

 

A tela fala a língua da sedução. E a vida real fala outra língua.

 

Agora, a peça mais importante do quebra-cabeça. Sándor Ferenczi, o analista húngaro, escreveu em 1933 um texto que revolucionou a clínica do trauma: Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança (FERENCZI, 1933, Obras Completas, v. 4, p. 111-121). Ele mostrou que existe uma confusão entre a língua do adulto e a língua da criança. O adulto fala a língua da paixão, da sedução, da exigência. A criança fala a língua da ternura, da brincadeira, do afeto simples. Quando essas línguas se confundem, nasce o trauma.

 

Traz isso para a tela. A tela fala a língua da sedução: promete a vida perfeita, o corpo perfeito, a conquista, a realização imediata. A sua vida real fala outra língua: a língua do trabalho, do tempo, da rotina, das pequenas conquistas que ninguém filma.

 

E você, seduzido pela língua da tela, começa a achar que a sua língua, a sua vida, está errada. Não está. Você só está confundindo a língua da imagem com a língua da vida. E quem confunde, sofre. E quem sofre, foge para a tela. E quem foge para a tela, se afasta ainda mais da própria vida.

 

9. COMO SAIR DO CICLO

 

O caminho não é odiar o celular. É voltar para a sua vida.

 

Então, o que fazer? Três movimentos.

 

Primeiro: pare de julgar a sua insatisfação como fraqueza. Ela é um sintoma, não uma falha de caráter. O que você sente diante da tela é a resposta previsível de uma mente bombardeada por imagens que não são reais.

 

Segundo: dê nome ao que você sente. Inveja. Angústia. Insatisfação. Desejo. O que não tem nome domina você. Nomear é o primeiro passo para dominar. Quando você diz "isso é inveja do que eu vejo na tela", a imagem perde parte do poder.

 

Terceiro: sustente a sua vida. Olhe para o que é seu: o seu emprego, a sua casa, o seu casamento, o seu corpo, o seu dia comum. Não para aceitar o que não te faz bem, mas para ver com os próprios olhos, sem a lente da comparação. A sua vida real, com todos os seus limites, é o único lugar onde você pode construir algo. A tela mostra o que já foi construído por outros. A diferença entre os dois é a sua vida.

 

Se a sua vida não vai para frente, talvez não seja porque a sua vida é pequena. Talvez seja porque você está vivendo com os olhos na vida dos outros. A imagem que você deseja não é real. A vida que você tem é. E é só nela que a sua história pode andar.

 

Você não precisa fazer isso sozinho. Se você sente que esse desejo virou prisão, fale, procure ajuda. O CVV atende pelo 188, todos os dias, 24 horas, de graça, com sigilo absoluto. E se você quiser ir mais fundo na sua história, a porta da GuinaPsi está aberta.

 

Até a próxima guinada.

 

BIBLIOGRAFIA

 

·         FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 12, p. 163.

·         FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 21, p. 141.

·         KLEIN, M. Inveja e gratidão (1957). In: Obras Completas de Melanie Klein, v. 3. Rio de Janeiro: Imago, 1991. p. 234.

·         WINNICOTT, D. W. Comunicando e não comunicando levando ao estudo de certos opostos (1963). In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983. p. 169.

·         LACAN, J. Escritos (1966). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 345.

·         FERENCZI, S. Confusão de língua entre os adultos e a criança (1933). In: Obras Completas de Sándor Ferenczi, v. 4. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 111-121.

 

SOBRE O AUTOR:

Luiz J. Ribeiro Jr. — Psicanalista Clínico, pós-graduado em Psicanálise Clínica Integrativa com especializações em Neuropsicanálise e Neuropsicologia. Com mais de 30 anos de trajetória profissional multidisciplinar — incluindo Jornalismo, Gestão pela Qualidade, Segurança do Trabalho e Responsabilidade Social —, une a profundidade da escuta psicanalítica às descobertas da neurociência no atendimento clínico e organizacional.

Este conteúdo é fruto dos seus estudos e da prática clínica.

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