Quem nunca prometeu a si mesmo que mudaria de atitude, mas, pouco tempo depois, se viu preso na mesma situação dolorosa? É a escolha do mesmo tipo de relacionamento tóxico, a repetição dos mesmos erros no trabalho, ou aquela mania antiga de se boicotar quando tudo está dando certo.
Se a gente quer ser feliz, por que o nosso comportamento nos empurra para o buraco?
Para o senso comum, isso é falta de vergonha na cara, burice ou "dedo podre". Mas para a psicanálise, o buraco é mais embaixo. Nós não repetimos o sofrimento porque queremos sofrer, mas porque a nossa mente inconsciente tem uma lógica muito própria — e secreta — para lidar com a dor.
No começo de tudo, o criador da psicanálise, Sigmund Freud, achava que o ser humano era guiado apenas pela busca do prazer e do bem-estar. Mas ele começou a atender pessoas que tinham passado por traumas terríveis (como sobreviventes de guerra) e percebeu que elas sonhavam e reviviam o terror todas as noites. Ele também via crianças que, na brincadeira, repetiam sem parar o momento exato em que suas mães iam embora.
Foi aí, em 1920, que Freud descobriu a Compulsão à Repetição.
Pense no inconsciente como um aplicativo de GPS (como o Waze). Ele não sabe o que é passado ou presente; para ele, tudo está acontecendo agora. Se você viveu uma situação de abandono, rejeição ou falta de afeto na infância, a sua mente gravou aquele sofrimento como um "mapa de navegação". Mesmo que esse caminho seja horrível e cheio de buracos, o seu inconsciente te joga lá de novo porque é o único caminho que ele já conhece e sabe como andar. O desconhecido dá mais medo na nossa mente do que a dor que já nos é familiar.
Freud explicou que a gente repete no presente aquilo que não consegue lembrar e resolver do passado: "Uma compulsão à repetição que se sobrepõe ao princípio do prazer. Ela nos parece mais primitiva, mais elementar, mais pulsional do que o princípio do prazer que é por ela colocado de lado. O paciente não pode recordar-se de tudo o que nele está recalcado, e o que ele não pode recordar pode ser precisamente a parte essencial (...). Ele é obrigado a repetir o recalcado como uma experiência atual, em vez de recordá-lo como um fragmento do passado." (Além do princípio do prazer (1920). Vol. XVIII, p. 32, parágrafo 2).
Existe uma tentativa de cura nisso: a sua mente repete a história na esperança secreta de que, desta vez, você consiga um final feliz. O problema é que, como você usa o mesmo mapa antigo, o final acaba sendo o mesmo de sempre.
Para entender por que a gente se apega tanto ao que nos destrói, o psicanalista Jacques Lacan trouxe uma ideia revolucionária. Ele separou duas coisas que parecem iguais, mas são totalmente diferentes: o prazer e o gozo.
O Prazer: É a calmaria, o equilíbrio, o bem-estar. É o que o seu "Eu" consciente quer (uma vida leve, um amor saudável, paz de espírito).
O Gozo: É uma satisfação exagerada e paradoxal. É uma mistura de dor com um prazer tão intenso e profundo que o inconsciente encontra no próprio sofrimento.
Quando você chora e reclama de um padrão destrutivo, a sua mente consciente está sofrendo de verdade. Mas, lá no porão do inconsciente, uma parte de você está tendo um "lucro secundário" com aquela situação. O neurótico prefere a certeza de um sofrimento que ele já conhece do que o risco e o vazio de mudar de vida. Lacan traduziu essa mecânica de forma brilhante:
"O que chamamos de sintoma é o modo como cada um goza de seu inconsciente, na medida em que o inconsciente o determina. O sujeito sofre com seu sintoma, mas esse sofrimento é a única via pela qual ele sustenta um gozo que lhe é essencial. A clínica nos mostra que o neurótico prefere a certeza de um sofrimento familiar ao vazio de abrir mão daquilo que organiza a sua economia pulsional." (O Seminário, Livro 23: O sinthoma (1975-1976), p. 64, parágrafo 3).
É por isso que conselhos lógicos de amigos, livros de autoajuda ou broncas de familiares não funcionam. O circuito do gozo é fechado. A pessoa se torna, ao mesmo tempo, a vítima e o próprio carrasco.
Se a repetição é um piloto automático, você não consegue desligá-la pensando logicamente ou tomando um remédio. A engrenagem só quebra quando ela bate de frente com um limite: o espaço do consultório e a relação com o analista (a transferência).
Quando você entra em análise, você inevitavelmente vai tentar repetir com o analista os mesmos jogos de manipulação, carência ou rejeição que faz com todo mundo lá fora. A diferença é que o analista tem estofo clínico — ele é treinado para não aceitar o jogo. Ele não te pune, não te abandona e não valida a sua autossabotagem.
Ao invés de deixar você agir e quebrar a cara no piloto automático, o analista te força a parar e colocar aquela dor em palavras. Karl Abraham, um dos grandes pioneiros da psicanálise, explicou que o tratamento só termina de verdade quando o paciente consegue tirar essa energia que estava presa nos traumas do passado e usá-la na vida real do presente:
"O término de uma análise só se realiza quando os pacientes conseguem transferir a energia psíquica, anteriormente fixada nas amarras de sua neurose de destino e de suas repetições inconscientes, para objetos reais do mundo externo. Isso demanda que a transferência seja analisada até o fim, desfazendo a ilusão de que o passado pode ser emendado repetindo-o no presente." (Considerações sobre o tratamento psicanalítico (1924). In: Teoria Psicanalítica da Libido, p. 198, parágrafo 1).
Repetir o que nos faz mal é a maneira que a nossa mente encontrou para não encarar o vazio do desamparo. O sofrimento, por pior que seja, dá uma falsa sensação de identidade: a pessoa sente que só sabe quem ela é através daquela dor.
O papel da psicanálise nunca será passar um diagnóstico ou te julgar. O divã é o lugar para acolher essa repetição. Quando você transforma o terror mudo e o "lucro" da sua dor em palavras ditas e compreendidas, você desliga o piloto automático.
Só então você deixa de ser o fantoche de uma história que você não escreveu e ganha a liberdade de errar por caminhos novos e, finalmente, começar a viver a sua própria vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DESTE TEXTO:
ABRAHAM, Karl. Considerações sobre o tratamento psicanalítico (1924). In: Teoria Psicanalítica da Libido. Tradução de J. O. A. Abreu. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1970.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Volume XVIII. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 23: O sinthoma (1975-1976). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sergio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.
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