O que acontece na hora do pânico?
Quem já teve uma crise de pânico sabe que a sensação é aterrorizante. O coração dispara, a falta de ar sufoca e, em questão de segundos, vem a certeza absoluta de que você está tendo um ataque cardíaco ou enlouquecendo. Vem o medo iminente de morrer.
Para a medicina tradicional, isso é visto apenas como um "curto-circuito" de substâncias no cérebro. Mas para a psicanálise, o pânico não é uma doença que brotou do nada. O pânico é o grito desesperado da nossa mente quando ela fica completamente sem defesas diante de uma dor ou de um medo que ela não conseguiu transformar em palavras.
Dito isso, o que segue abaixo é fruto dos meus estudos clínicos. E destaco que a bibliografia de referência está completinha na descrição ou nos comentários deste vídeo.
A pane no sistema de alarme do "Eu"
Para entender o pânico sem transformá-lo em uma simples sigla médica, nós precisamos olhar para o nosso sistema de alarme interno.
Normalmente, a nossa mente usa uma "angústia de sinal" — que é um medo controlado que nos avisa quando há um perigo, nos ajudando a nos proteger. Mas, às vezes, o balde transborda. A mente é invadida por um excesso de energia, de estresse ou de traumas guardados que ela simplesmente não consegue digerir. É aí que o sistema pifa e entramos na chamada angústia automática.
Sigmund Freud explicou que, nesse momento, o nosso "Ego" (o nosso "Eu" consciente) desaba e volta a sentir aquele desamparo primitivo de quando éramos bebês e não sabíamos como nos defender do mundo:
"Chamamos de situação de perigo uma situação de desamparo reconhecida, lembrada ou esperada. A angústia é a reação original ao desamparo no trauma, que é reproduzida mais tarde na situação de perigo como sinal de socorro. O ego sucumbe à angústia automática quando a estimulação interna atinge uma intensidade que ele não consegue dominar ou descarregar." (Inibições, sintomas e ansiedade (1926). Vol. XX, p. 162, parágrafo 3).
Na crise de pânico, como a mente não encontra palavras para explicar esse "transbordo" interno, o corpo assume o comando. A mente traduz essa pane psicológica como se fosse uma morte física iminente.
Quando as palavras desaparecem e o corpo responde
O psicanalista Jacques Lacan trouxe uma visão contraintuitiva sobre isso. Nós costumamos achar que ficamos ansiosos quando nos falta algo. Mas Lacan diz que o pânico acontece pelo oposto: quando nos falta a própria falta.
Isso significa que o pânico acontece quando o "véu" que nos protege das verdades mais cruas da vida (o que chamamos de Simbólico, o mundo das palavras) cai por terra, e somos jogados de cara no Real — aquele território onde as palavras somem, o sentido da vida desaparece e o corpo passa a responder sozinho e desordenado:
"A angústia não é a dúvida, a angústia é a causa da dúvida. Ela surge quando o sujeito é confrontado com o que não engana, isto é, com o Real do objeto que surge no lugar onde deveria estar a falta. A angústia é o sinal de que o sujeito está prestes a ser tragado pelo Outro, sem a mediação do significante." (O Seminário, Livro 10: A angústia (1962-1963), p. 83, parágrafo 2).
Trazendo isso para os dias de hoje, a psicanalista francesa Colette Soler explica que a crise de pânico é o grande sintoma da nossa época. Como vivemos correndo, sem tempo para conversar de verdade e esvaziando o valor da palavra, os nossos conflitos internos perdem o canal de saída e viram um curto-circuito físico:
"O pânico moderno manifesta-se como uma crise de angústia desvinculada de qualquer representação ideacional. É o afeto puro, destacado de uma história ou de um conflito inconsciente visível, o que leva o sujeito a viver o fenômeno como um curto-circuito biológico, um verdadeiro naufrágio do sentido no corpo." (O que a psicanálise diz do pânico (2004), p. 45, parágrafo 1).
O medo de cair no vazio
Para fechar esse quebra-cabeça, o psicanalista Donald Winnicott descobriu que o pânico do adulto muitas vezes é o eco de "agonias primitivas" da nossa infância mais profunda.
Se quando éramos bebês nos faltou aquele colo firme que nos dava segurança (o que ele chama de holding ou sustentação), a criança cresce com medos terríveis guardados no porão da mente: o medo de se despedaçar, de cair em um vazio infinito ou de perder o controle sobre o próprio corpo. Diante de um grande estresse na vida adulta, esse porão se abre. O pânico não é um susto com o presente, é o fantasma do passado exigindo ser acolhido:
"A agonia impensável está relacionada com uma falha da provisão ambiental no estágio da dependência absoluta. Ela se manifesta clinicamente como o medo de retornar a um estado de fragmentação, de cair para sempre, ou de desabar na inexistência, que o indivíduo tenta desesperadamente controlar através de mecanismos rígidos de autossustentação." (O brincar e a realidade (1971), p. 112, parágrafo 4).
A saída pelo Divã
O que a psicanálise faz, então? Ela não te dá um diagnóstico para você carimbar na testa e se conformar. Ela te acolhe.
O ataque de pânico acontece porque o inconsciente não encontrou palavras para escoar uma dor antiga. Por isso, a medicação pode até ser uma bengala importante no momento da crise para acalmar o corpo, mas ela não resolve a raiz do problema.
A cura vem pela fala. No divã, com o estofo e o suporte do analista, você é convidado a transformar aquele terror mudo que faz o coração disparar em histórias contadas, choradas e compreendidas. Quando você dá um nome ao seu desamparo, o medo da morte perde as forças, e você finalmente ganha a liberdade para voltar a habitar a sua própria vida.
Se você cansou de viver com medo de ter medo, o divã é o lugar onde você pode, finalmente, soltar esse peso.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DESTE TEXTO:
FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade (1926). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Volume XX. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1980.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 10: A angústia (1962-1963). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
SOLER, Colette. A Coisa Freak: O pânico na atualidade. Tradução de Marcus Vinicius Neto. Rio de Janeiro: Contra Capa Livros, 2006. [Contendo as conferências estabelecidas sobre a clínica do pânico de 2004].
WINNICOTT, Donald W. O Brincar e a Reality (1971). Tradução de J. O. A. Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1975.
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