A ansiedade — estruturalmente compreendida na psicanálise sob o conceito de angústia — não é um defeito do sistema, mas um sinalizador de perigo. Em sua obra fundamental Inibição, sintoma e angústia (1926), Sigmund Freud reformula sua teoria e postula que a angústia é uma reação defensiva do ego diante de uma situação de desamparo (Hilflosigkeit). Quando o sujeito se depara com um excesso de excitação pulsional ou com a iminência de uma perda objetal que ele não consegue metabolizar, o ego emite esse sinal de alerta. Como aponta Silva (2020), o transtorno de ansiedade (TA), sob a ótica analítica, reflete justamente a fragilidade dos mecanismos de defesa do sujeito, que se vê inundado por conteúdos inconscientes recalcados que ameaçam romper a barreira defensiva do ego. A ansiedade é o corpo e a mente reagindo preventivamente a um perigo que o sujeito sente, mas não consegue nomear.
Se a ansiedade corre pelo circuito do excesso e da antecipação, a depressão frequentemente opera na economia da falta, da estagnação e do esvaziamento. Na atualidade, as depressões assumem contornos específicos ligados às exigências de performance e à ilusão de autossuficiência do capitalismo tardio. Conforme discute Campos (2016), as formas contemporâneas de depressão estão intimamente vinculadas a um colapso narcisista e a uma severa autocrítica de um ego que falhou em atingir os ideais tirânicos impostos pela cultura.
Esse esvaziamento existencial e a perda do sentido da vida ganham uma luz profunda através das contribuições de Donald Winnicott em O brincar e a realidade (1975). Para Winnicott, a saúde psíquica está atrelada à capacidade do indivíduo de vivenciar a vida de forma criativa. Quando o ambiente primitivo falha em fornecer o suporte necessário (holding), o sujeito pode desenvolver um "Falso Self" adaptativo para sobreviver às demandas externas. O preço dessa submissão contínua ao desejo do outro é o distanciamento do seu "Verdadeiro Self", gerando um sentimento crônico de irrealidade e futilidade, que se manifesta clinicamente como o afeto depressivo profunda: a sensação de que nada vale a pena porque o próprio ser foi silenciado.
Longe de estarem restritas aos grandes colapsos psíquicos, a ansiedade e a depressão se infiltram sutilmente nas microdecisões e nos impasses do dia a dia. Conforme pontua Peixoto (2016) ao analisar a psicanálise da vida cotidiana, os sintomas neuróticos contemporâneos se disfarçam na pressa crônica, na incapacidade de tolerar o tédio, no isolamento afetivo e na constante necessidade de anestesiamento digital. O homem moderno corre para não se angustiar, e paralisa quando não consegue mais correr.
O papel da psicanálise diante desse binômio não é erradicar o sintoma de forma medicamentosa imediata, mas oferecer o espaço clínico para que o sujeito possa falar sobre o que a sua ansiedade e a sua depressão estão tentando denunciar. No setting analítico, a ansiedade deixa de ser um ataque incompreensível e passa a ser lida como um texto sobre o medo do desamparo. Da mesma forma, a depressão deixa de ser apenas uma apatia e passa a ser compreendida como o luto por um eu que se perdeu nas expectativas alheias. É na travessia da análise que o sujeito encontra sustentação para suportar o vazio e resgatar o direito de desejar criativamente.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMPOS, É. B. V. Uma perspectiva psicanalítica sobre as depressões na atualidade. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v. 7, n. 2, p. 116-133, dez. 2016.
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Volume XX. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
PEIXOTO, L. M. Psicanálise da vida cotidiana. São Paulo: Portal Pepsic, 2016.
SILVA, E. M. N. O transtorno de ansiedade (TA) na perspectiva da psicanálise. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, ano 05, ed. 09, v. 01, p. 117-128, set. 2020.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Tradução de J. O. A. Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
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