ANÁLISE COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL?!

1. A Falta de uma "Falta" (O Robô não deseja)

Como Jacques Lacan postulou, o desejo nasce da falta. O ser humano fala, sofre, cria sintomas e busca análise porque é um sujeito castrado, faltante, atravessado pelo desamparo. O analista opera na sessão a partir da sua própria hiância (o vazio que nos constitui), do seu próprio vazio regulado pela sua análise pessoal.

2. A Impossibilidade da Transferência

A transferência não é um relatório de recorrências de palavras; ela é um fenômeno vivo e pulsional. O analisando projeta no analista o amor, o ódio, o medo da rejeição e as figuras primordiais do seu passado porque ele enxerga no analista um semelhante — um "Sujeito Suposto Saber" que também é de carne, osso e mistério.

3. A Ausência Absoluta de Contratransferência

Seguindo as contribuições de Heinrich Racker, a contratransferência — a resposta inconsciente do analista às projeções do paciente — é uma das bússolas mais refinadas do setting. O analista sente o peso do silêncio, sente a angústia que invade a sala, sente a irritação do acting-out do paciente. Essa "escuta de inconsciente para inconsciente" orienta o momento exato da interpretação ou do corte.

4. A Escuta do "Não-Dito" (O Avesso da Linguagem)

A IA foi programada na lógica do Grande Modelo de Linguagem (LLM): ela prevê a próxima palavra com base na probabilidade do que já foi escrito. A psicanálise, contudo, opera na lógica do avesso. Nós não escutamos o que o paciente diz com clareza; nós escutamos o tropeço, o ato falho, o silêncio súbito, o gaguejar, a contradição que quebra a semântica.

O Veredicto Clínico

A ideia de uma "IA analista" é uma aberração conceitual. Se tirarmos o corpo, o sofrimento mútuo, a neurose de ambos os lados e a transferência, o que sobra não é análise; é apenas uma anamnese automatizada, uma aplicação de questionário cognitivo-comportamental gourmetizado.

A IA pode servir ao analista como uma calculadora serve ao físico — para organizar transcrições, catalogar frequências de palavras ou ajudar na burocracia do consultório fora da sessão. Mas dentro do setting, onde o mistério do sofrimento humano se desdobra no silêncio do divã, a máquina é inteiramente analfabeta. Ali, só os organismos, o desejo e a escuta de quem também sabe o que é ser humano podem operar a cura.

Referências bibliográficas de apoio:

• Simar Bajaj (The New York Times, 2025, 26 de setembro) Perspectivas atuais sobre o uso de IA em interações humanas, destacando limites importantes da IA para substituição do contato humano verdadeiro.

• Rodrigues, F. A. A., & Silva, A. P. (2025). Inteligência artificial e psicanálise: perspectivas contemporâneas. I+D Internacional - Revista Científica Acadêmica. Explora a integração entre IA, psicanálise e neurociências, discutindo potenciais, desafios éticos e metodológicos e uma abordagem transdisciplinar.

• Silveira, P. V. R., & Lemos, S. C. A. (2021). Inteligência artificial e psicanálise: uma articulação possível. Brazilian Journal of Development. Trata das afinidades e desafios na aproximação entre psicanálise e IA, especialmente em relação à subjetividade e conflitos internos.

• Leite, P. C. B. S. (2024). A psicanálise e o digital: Tatear além da distopia. Estudo sobre as relações entre psicanálise, tecnologia digital e IA, com foco em clínica e cultura.

• Artigo na Veja (2025). Por que a inteligência artificial não pode substituir um psicanalista? Discussão sobre as limitações da IA na compreensão do sofrimento humano e no papel do analista.

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