A série Ruptura a psicanálise

A série Ruptura a psicanálise

Severance: A Cisão do Ego e o Mal-Estar no Trabalho

 

A série Severance (Ruptura) utiliza a ficção científica para explorar um conceito psicanalítico fundamental: a cisão do ego. A premissa de uma separação cirúrgica das memórias entre a vida pessoal e profissional é uma representação literal de um processo defensivo descrito por Freud, que se manifesta de maneiras mais sutis, porém igualmente impactantes, na realidade psíquica dos indivíduos.

 

A Cisão do Ego como Defesa

 

Em seu último trabalho, "A Cisão do Ego no Processo de Defesa" (1938), Freud analisa como o ego pode se dividir para lidar com uma realidade traumática ou inaceitável. Ele descreve esse mecanismo como uma forma de o psiquismo se proteger de conflitos internos insuportáveis, criando uma espécie de compartimentalização da experiência. Freud afirma que: "O ego pode, sob a influência de um trauma psíquico, cindir-se em duas partes, uma das quais se comporta como se nada tivesse acontecido, enquanto a outra toma conhecimento da realidade do trauma e sofre as consequências" [1, p. 223]. Em Severance, essa cisão é personificada de forma dramática nos "Innies" e "Outies". O "Innie" representa a parte do ego que ignora a vida exterior, focando exclusivamente na função laboral dentro da Lumon, enquanto o "Outie" tenta manter uma vida normal, suprimindo ou ignorando o que ocorre no subsolo da empresa.

 

A Alienação e o Desejo

 

A estrutura da Lumon, com suas regras rígidas e seu controle absoluto sobre a subjetividade dos funcionários, funciona como um Superego tirânico, impondo uma lei que exige a renúncia do desejo individual em prol da produtividade. Freud, em "O Mal-Estar na Civilização" (1930), já observava que a civilização se constrói sobre a renúncia pulsional, um preço a ser pago pela segurança e pela vida em comunidade. Ele argumenta que: "A liberdade individual não é um bem da civilização. Ela era máxima antes de qualquer civilização, embora, é verdade, naqueles tempos não tivesse valor, porque o indivíduo dificilmente possuía meios de defendê-la" [2, p. 106]. A série Severance leva essa ideia ao extremo, mostrando a alienação radical do sujeito em um sistema que o desumaniza. A luta dos personagens para unificar suas memórias e, consequentemente, suas identidades, é uma poderosa metáfora para a busca pela integridade do sujeito e pela afirmação de seu desejo, provando que a ruptura total é uma ilusão psíquica insustentável e que o mal-estar, quando negado, retorna de formas ainda mais contundentes.

 

Referências

 

[1] FREUD, Sigmund. A Cisão do Ego no Processo de Defesa (1938). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Volume XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

[2] FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização (1930). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Volume XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

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